quinta-feira, 4 de agosto de 2011


Obra santa

Não sou santo!
Sou santeiro!
Disse o homem de fala e aparência simples
Talho madeira
Olho as pessoas, a natureza, os animais...
E com muita fé concluo minhas obras
Pego a madeira que já não é mais madeira
Mas pele, osso...
Chega a transpirar, misturando-se ao meu suor
As vezes sangra em minhas mãos, misturando-se ao meu sangue
Mas não sou santo!
Sou santeiro!
E apesar de fazer do toco um “santo”
Não faço milagre, pois não lhe dou vida, apenas minha experiência e inspiração
Se fizesse milagre eu seria santo
Mas sou santeiro!
E os “santos” que faço apesar de não viverem levam um pouco da minha vida.
Moldo o barro
Água e terra
E minhas mãos os modelam conforme meu querer
Faço-lhes bocas, mãos, pés, olhos...
Mas não lhes dou o essencial
O sopro de vida
Apenas os seco ao vento e ao sol
Não sou “santo”
Sou santeiro
Não tenho o poder de tornar alguém ou algo santo
Santeiro é apenas um título
Não um mandato com poderes supremos outorgados do alto
Pode a criatura ser maior que seu criador?
Sou santeiro não santificador!
Quem fez o barro?
A água?
O homem?
Não posso fazer uma de minhas esculturas bater asas e voar como a águia
Nem mesmo cacarejar como uma galinha
Somente fazer com que elas despertem no homem a imaginação
E ele mesmo crie em seu mundo sua própria ilusão
O bem ou o mau estão em suas próprias decisões
E se eu quiser ser santo posso alcançar esta dádiva
Mas por enquanto só sou santeiro
Vivo num mundo repleto de “esculturas” que me levam a pensar, imaginar...
Sei quem as fez e este sim é Santo
E apesar de eu não ser, tenho em mim um pouco de sua vida,
Também derramou seu suor e seu sangue para me dar uma nova forma
Pois aquele que vivificou ao barro se tornou como uma de minhas esculturas
Para que eu me tornasse uma de suas.

Ribamar T. de Lima

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